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terça-feira, março 15, 2005

Venham a nós as criancinhas!

Finalmente!
A bendita primeira fase do IRS acabou hoje!
... Pela via normal, pela internet ainda têm mais um tempinho, mas se não estão com vontade de pagar uma multa, despachem-se...

Como não podia deixar de ser, os bons dos contribuintes portugueses deixam tudo para o último dia... E para meu terror, hoje a fila passava da porta das finanças, já estava na rua!
É que os IRS's são recebidos apenas no 3º andar...

"Hoje vai doer!" - foi o meu primeiro pensamento mas como eu até já previa uma situação destas, fui munida de ténis confortáveis e calças de ganga.
Ao fim de algum tempo, chegou mais uma senhora com a filhota de 3 - 4 anitos pela mão.
Se a minha espera iria ser longa, a criança aliviou o que seria um dia tortuosamente cansativo.

As crianças na sua inocência geralmente dizem tudo o que lhes vai na alma, não são como nós que temos que obedecer a códigos de conduta, normas e trâmites de boa educação.
Passado um bocado de estar em fila e de ter brincado com a boneca que trazia, a miudinha vira-se para a mãe com um ar muito entediado:
- Ó mãe… onde é que nos sentamos? Queria sentar-me um bocadinho...
Toda a gente na fila concordou com ela. Ainda só tinha passado 1 hora e ainda não tínhamos passado do R/c mas as pernas dão logo sinais de cansaço.
A mãe disse-lhe, com um ar muito paciente que, não havia bancos mas se ela quisesse podia sentar-se nos degraus da escada que desta vez (frisou bem o “Desta Vez”) ela não ficava chateada se a roupa da menina ficasse um bocadinho suja.
- Mas os degraus são frios e duros!
Mais uma vez a criança a denunciar a tristeza da situação, mas não se podia fazer nada.

Uma hora e uns degraus mais acima, a miudinha, já farta (como toda a gente) de estar ali na fila interminável, aborda novamente a mãe:
- Ainda demora muito? Não podemos passar à frente?
Toda a gente ficou de 'orelha no ar'.
- Isso é que era bom... - Comentário dito entre dentes pela mãe - Não pode ser, estes senhores já cá estavam todos quando nós chegamos e não ficavam nada contentes se chegássemos nós e fossemos atendidas primeiro, a mamã não está grávida da menina, se tivesse...
- Então tá bem, vou brincar!
A criança contentou-se com a resposta mas as outras pessoas começaram a comentar a vergonha daquela situação, que devia haver condições para tornar mais suportável a espera, que deviam ter mais gente ali a trabalhar com tanto desemprego que aí anda, blá-blá-blá...

Uma senhora meteu-se com a miudinha e disse-lhe para ir lá ao sítio onde recebiam os IRS perguntar se demorava muito a ser atendida.
A criança entendeu isso como uma brincadeira divertida e foi toda contente transmitir a mensagem.
Passado um bocadinho vinha com a resposta da “senhora daquela sala dos papéis”.
- A senhora disse-me que, se quisessem fossem para lá fazer o trabalho dela.
Estava instalado o caos.
- Era o que faltava!
Novamente a criança foi o meio de comunicação da revolta de quem esperava ali em pé há umas quantas horas.
- Diz lá à senhora que se ela não gosta de carimbar, eu faço isso por ela, têm é que me pagar o que ela recebe!
Desta vez a criança não trazia resposta.

Eu achei que provavelmente foi a decisão mais acertada que o bando de criaturas teve durante a manhã inteira mas de certeza que lhes tinha consumido muita energia ...
Ainda se comentava a resposta das senhoras quando, passam 4 das 5 funcionárias que estavam a atender os contribuintes, deixando só uma pessoa a receber as declarações.
E como seria de adivinhar, quem ficou foi uma jovenzinha que é a única pessoa decente e educada daquela secção.
Finalmente, passado uma hora e tal, chegaram as senhoras e eu era finalmente atendida ao fim de 4 horas de espera.
Tive a sorte de ser atendida pela rapariguinha que esteve a trabalhar sozinha.
A rapariga estava visivelmente exausta mas mantinha o sorriso como boa profissional do atendimento ao público.
E estava eu a ser atendida quando,... a miudinha voltava à carga.
- A minha mãezinha disse se as senhoras se despachavam porque eu já tenho a barriga a dar horas!
Riso geral do lado dos contribuintes.
Resposta daquela criatura má que eu odeio:
- Diz à tua mãezinha que tu não és nenhum relógio para dar horas!
E lá foi ela entregar o recado.
Quando saí a 'mensageira do descontentamento' voltava com a resposta que optei por não saber. Afinal já passavam das 14 e eu ainda não tinha almoçado.
Fui embora e não quis saber de mais nada!
Caso os meus queridos leitores e comentadores sejam trabalhadores independentes, tratem de fazer o IRS que assim evitam estas tragédias tipicamente portuguesas.

E agora vou descansar, sim porque hoje o dia foi looooongo e cansativo!

Um enorme bem-haja para todos vós,
a vossa terrorista exausta

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